- Por que estais felizes, filhos das terras inférteis? Que encontrastes em vossa vida de tão belo que possa valer a dúvida de ver o Sol amanhã?
Estais cingidos de injustiça dos reis. Estais a morrer de afrontas. Como cantais as canções dos livres?
A ansiedade de Lykourgos lhe subiu a voz. Não se assustaram tanto aqueles moradores de lugar nenhum. Parece que não tinham o medo como uma das suas sensações mais próprias. Lykourgos já fora dominado pelo medo de sua existência não lhe valer a pena.
- Por fora tu és forte, mas por dentro te assustas a ti mesmo. Tu és teu maior temor. Falou uma mulher dentre o grupo, como se conhecesse o caçador a muito tempo. Em uma sucessão de acontecimentos inesperados, ouviu-se um som como de um terremoto. Eram os cavaleiros de Odoacro IV. Conhecidos como emissários do rei, entregavam as suas espadas ao sangue.
Gritos de guerra ecoaram da floresta, porém, os mártires não fugiam, não evitavam. Ajoelharam-se num gesto de paz, esperando o fio da espada. Não pareciam morrer. Ao contrário deles, o caçador fugiu com sucesso, assistindo mais uma violência sem sentido. E o sentido fugiu de sua mente mais uma vez.
- Será que a vida tem sentido? Será tão bom aceitar que a morte faz parte de nós? Lykourgos não conseguia aliar o que sentia seu coração e o que viam seus olhos continuamente. Entregou-se aos dias um após o outro. Vivendo em um mundo dentro de si... Com cicatrizes da guerra com suas caças. Viu nascerem e morrerem reinos. E encontrou um belo lugar na aldeia de Shabath, onde conheceu uma bela jovem que nunca conheceu os mundos além dos pastos e seu pai.
- Hoje, a vila de Shabath é a sociedade onde vós estais E eis aqui o próprio diante de vós! Sou Lykourgos e vivo. Vós estais presos com correntes de ferro, e vosso escambo maltrata minha vista. Podeis sair.
Então, Adonis e os dois irmãos saíram de lá como que constrangidos, quem sabe gostariam de receber suas cicatrizes...
Ao saírem os jovens da sala, Lykourgos permaneceu ali sozinho, pensando consigo mesmo sobre uma coisa que ouviu escondido em meio a todo aquele terror. Uma mulher, que parecia em estado de plena paz, sussurou com alegria caindo sobre o próprio sangue: Jesus

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Todos os relacionamentos caracterizam-se como relacionamentos, se, e somente se houver elementos de mediação. Algo que seja capaz de aproximar duas ou mais partes por um interesse comum. Neste sentido, podemos entender melhor a palavra religião, do latim religare, que significa refazer um contato outrora perdido. No presente caso é religar o contato do homem com o sagrado e a divindade. É por isso que toda a religião carece de um meio pelo qual possa estabelecer uma conexão com o ser divino, pressupondo que há um afastamento que demanda a “re-ligação”.

Saibamos de uma coisa: Todo ser humano possui um desejo que lhe move. Entender nossos desejos é a chave para não nos frustrarmos dando lugar aos desejos secundários, fragmentadores do nosso ser. Precisamos dar lugar a um desejo diferente do que a nossa natureza carnal (leia-se: pecado) quer. Esse desejo se encontra na verdadeira humanidade que Deus criou, representada no Éden. E viu que o resultado da criação era muito bom, até que nós (seres humanos) demos lugar a um desejo contrário, que se tornou em morte quando pecamos e nos desligando do ser divino.
O relacionamento humano com Deus, desde esse momento, passou a ser compreendido a partir de maus óculos. Portanto, transferimos os desejos menos importantes de nosso ser para o centro da nossa religiosidade e de nossa vida como um todo. Não demorou para que fossem criados “deuses secundários”, que traduzem o medo, a culpa, a maldade, a inveja, o orgulho, e todas as negatividades humanas foram transferidas para estas divindades, o que reflete mais o relacionamento do homem com demoníaco de que com o divino. Isso tudo para que o homem pudesse encontrar-se novamente com Deus. Frustrante... Os homens se enganaram em todo lugar. Ainda que Deus não tenha deixado de querer mostrar sua face, ninguém conseguiu enxeregá-la olhando para cima, pois ela desceu do vertical para o horizontal, se pôs defronte ao homem, e ele a negou, no próximo a quem negou a mão, e depois, no Jesus a quem negou se entregar. Então Jesus se entregou...
Quando os homens vislumbraram a face de Deus em Jesus, sua revelação mais plena, ficaram inconformados com esta re-ligação que veio à Terra num cavalheirismo divino. Disseram não à mão que Deus estendeu. Logo então, continuaram a fazer do jeito deles, tentando alcançar o céu com suas próprias mãos. Não entenderam que Jesus é a realização do seu maior desejo inerente, uma porta para entrar a Deus, e fazer dele casa e hóspede ao mesmo tempo. O instrumento que Deus usa para se relacionar com o homem sempre será o amor, que nunca poderemos entender, e sempre teremos a chance de experimentar.

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